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Marcello Simão Branco entrevista Jorge Luiz Calife

COMENTÁRIO CONVIDADO: MARCELLO SIMÃO BRANCO ENTREVISTA JORGE LUIZ CALIFE

25 de dezembro de 2010 | 08h20 | atualizado às 12h29

COMENTÁRIO CONVIDADO: MARCELLO SIMÃO BRANCO ENTREVISTA JORGE LUIZ CALIFE

Ano passado a Devir lançou a "Trilogia Padrões de Contato", de Jorge Luiz Calife, em um único volume. Primeiro publicada entre 1985 e 1991, a Trilogia é considerada um clássico da ficção científica hard brasileira. Agora a editora de São Paulo lança "Angela entre dois Mundos", quarto romance de Calife e uma narrativa que explora acontecimentos anteriores à Trilogia - entre eles, a infância da heroína Angela Duncan e os seu primeiros contatos com a superinteligência alienígena conhecida como Tríade. No romance, Angela se envolve com uma busca pela mãe, cuja espaçonave se perdeu no espaço anos antes. O artista Vagner Vargas criou uma ótima ilustração de capa para o livro. A Devir planeja lançar em 2011 o segundo livro de contos de Calife.

Marcello Simão Branco, um dos responsáveis pelo "Anuário Brasileiro de Ficção Científica", fez a preparação do romance para a Devir, e aqui entrevista Jorge Luiz Calife a respeito de "Angela entre dois Mundos".

Marcello Simão Branco - O romance Angela entre dois Mundos só agora é publicado, bem depois da Trilogia Padrões de Contato, embora tenha sido escrita antes. Por que isso aconteceu e que detalhes a história revela de mais interessante para o "Universo da Tríade"?
Jorge Luiz Calife - Embora tenha sido o meu primeiro romance, ele levou mais tempo para ser concluído. A primeira versão de Angela entre dois Mundos foi escrita em 1979. Eu mostrei para o escritor e crítico Fausto Cunha, que achou que precisava ser mais desenvolvida. Daí eu parti para fazer o Padrões de Contato, e o livro ficou esquecido por vinte anos. Até que em 2004 achei o original datilografado em uma caixa de papelão e resolvi reescrevê-lo e terminá-lo. Esse primeiro romance aborda mais o futuro da Terra e por que a humanidade foi obrigada a colonizar o espaço. Na trilogia, a história parte logo para o espaço sideral e deixa a Terra para trás.

A FC que você criou em Angela exibe grande preocupação ambiental com o destino da Terra, um tema muito em voga, mas nem tanto em fins dos anos 70. Comente sobre isso e sobre as alternativas habitacionais e de estilo de vida que você propõe no romance.
Na verdade, toda essa preocupação com meio ambiente e ecologia nasceu na década de 1970, no rastro do movimento hippie, que pregava uma volta à natureza. Naquela época as pessoas discutiam se a Terra ia esfriar, entrando numa nova era do gelo, ou esquentar. Por isso no livro eu faço o planeta esquentar primeiro e depois esfriar. As ideias sobre colonização do espaço estavam muito em voga naquela época, Gerald O'Neill tinha publicado The High Frontier e o grupo de Stanford estava refinando suas idéias. E a idéia central era que se o parque industrial fosse movido para o espaço, a Terra poderia se recuperar de séculos de exploração e devastação. Que é o cenário do livro. As residências aéreas foram sugeridas pelo Arthur C. Clarke no seu livro de ensaios Perfis do Futuro, já as arcologias, as cidades monolíticas, surgiram com Paolo Soleri e Buckminster Fuller, dois pensadores dos anos 60.

O aspecto principal da obra é a apresentação e desenvolvimento da personagem central de suas histórias, Angela Duncan. De onde veio a ideia de criá-la e em conexão com a inteligência cósmica da Tríade? Angela seria a escolhida para guiar a humanidade frente aos mistérios do universo?
Quando eu tinha uns dez, onze anos, eu ia muito ao cinema com meus colegas de escola, tinha um cinema poeira no nosso bairro que passava muitos filmes de monstro e ficção científica. E um dos nossos filmes favoritos era A Máquina do Tempo, do George Pall, onde o viajante interpretado pelo Rod Taylor se apaixonava por uma loira do futuro, a Weena, da Yvete Mimieux. E ficou na minha mente aquela imagem da mulher do futuro, loira e linda. Mais tarde, no ginásio, a minha melhor amiga e primeira paixão foi uma jovem loira como a Weena, e daí que a Angela foi uma espécie de homenagem a essas minhas paixões da infância e adolescência. Como a saga de Padrões de Contato ia atravessar séculos, eu precisava que a Angela fosse imortal e pudesse acompanhar todo o desenvolvimento da humanidade. Daí a ligação com a Tríade.

Você é o principal autor da ficção científica hard no Brasil. Fale-nos desta sua preferência e que influência ela recebe de autores como Arthur C. Clarke, Larry Niven ou Gregory Benford.
Eu cresci na época mais futurista da história da humanidade. O período que vai do lançamento do Sputnik em 1957 ao desembarque da Apollo 11 na Lua em 1969. Comíamos e respirávamos futuro naquela época. E eu sempre fui fascinado pela aviação e a Astronáutica daí a importância que tem para mim imaginar o futuro das viagens espaciais dentro de uma perspectiva totalmente tecnológica e baseada no que acontece na vida real. Clarke e Larry Niven ainda são meus autores favoritos, daí a influência que eles exercem sobre a minha visão de Universo, que fica no meio termo: não sou tão otimista quanto o Clarke nem tão dark quanto o Niven.

De maneira preponderante, seus escritos procuram situar o ser humano para além das fronteiras da Terra. Mesmo com a perda de interesse popular e nas prioridades dos governos neste início de século XXI, você ainda acredita que "o espaço é a fronteira final" da humanidade?
É a única fronteira que temos. A humanidade não sobreviverá por muito tempo se ficar presa na Terra. Nosso planeta está mudando e pode ficar muito hostil para os seres humanos. Mesmo que a nossa escolha seja ficar aqui, para sobreviver no ambiente da Terra futura vamos precisar de tecnologias que só serão desenvolvidas com a colonização do espaço. Como disse um teórico dos anos 50, nossa opção é "o Universo ou nada!" E mesmo com os problemas atuais acho que estamos muito bem. A Estação Espacial Internacional está lá em cima, a maior obra de engenharia de todos os tempos, e outras estações comerciais estão em projeto, como a Sunchaser do Robert Bigelow. Os antigos teóricos achavam que íamos explorar o Sistema Solar com naves tripuladas. Mas os robôs são mais eficientes para isso. Quando a humanidade viajar para os planetas vai ser para colonizar, não para explorar. A menos que os seres humanos prefiram ficar aqui e esperar a extinção como os dinossauros. Larry Niven disse uma vez que "os dinossauros foram extintos porque não tinham um programa espacial". Nós temos, não só o programa espacial dos governos, mas também das indústrias privadas. Acho que empresas atuais como a Space X e a Orbital Sciences são as sementes da corporação Norland dos meus livros. A Space X testou com sucesso a sua nave espacial Dragon semana passada. E ela tem um escudo de reentrada otimizado para resistir às temperaturas de um retorno da Lua ou do planeta Marte. O que mostra como a indústria privada está de olho no espaço profundo. Ainda espero viver o suficiente para ver o retorno de astronautas a Lua, mas não acho que serão astronautas da NASA ou de qualquer agência do governo. Quando o homem voltar a pisar na Lua, talvez em 2020, vão ser tripulantes de uma nave comercial da Space X ou da Virgin Galactic.

Confira os DROPS de Causo

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.
Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

por: Terra Magazine
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