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Old Space Opera

Há alguns anos, nesta coluna, discuti o fenômeno da new space opera - umatendência da ficção científica inglesa e americana que vem se estabelecendo desde adécada de 1990.

23 de abril de 2011 | 07h52 | atualizado às 08h12

Há alguns anos, nesta coluna, discuti o fenômeno da new space opera - uma tendência da ficção científica inglesa e americana que vem se estabelecendo desde a década de 1990.

Formas mais antigas de space opera, porém, continuam circulando, e também vale a pena dar uma olhada nelas. Já fizemos isso aqui ( http://noticias.terra.com.br/interna/0,,OI3178602-EI6622,00.html) com Old Man's War (2005), de John Scalzi, um livro popular nos Estados Unidos e que dizem que vai virar filme. A total deferência à obra de Robert A. Heinlein (1907-1988) nesse romance o torna uma obra meio distante da new space opera.

Quando digo que a velha space opera continua "circulando", quero dizer que elas circulam lá fora, pois o mercado editorial brasileiro ainda é relativamente tímido com respeito à ficção científica - e em particular com as formas mais populares da FC. É verdade que a Editora Draco lançará em breve a primeira antologia de space opera brasileira, editada por Hugo Vera - com histórias de Gerson Lodi-Ribeiro, Clinton Davisson, Maria Helena Bandeira, Jorge Luiz Calife, Letícia Velásquez, Marcelo Jacinto Ribeiro, Flávio Medeiros Jr., Larissa Caruso e Hugo Vera -, mas até que eu possa dar uma olhada nela, vou me concentrar aqui em alguns exemplos americanos.

Crystal Soldier (Ace, 2007 (2005), 334 páginas, paperback), de Sharon Lee & Steve Miller. É o Livro Um da Duologia da Grande Migração, que é preqüência da bem sucedida série Liaden Universe©, publicada em capa-dura pela Baen Book, uma editora especializada em FC militar e de aventura.

Nesse universo ficcional que já conta com uns dez títulos, a humanidade está espalhada pela galáxia mas enfrenta a ameaça constante de uma espécie expansionista de grande poder bélico, o sheriekas. A história começa com M. Jela Granthor's Guard, um super-humano da classe M. (militar) náufrago em um planeta que teria sido duramente atingido pelos sheriekas. Ali Jela trava contato com uma pequena árvore de vagos poderes telepáticos, que o alimenta quando ele precisa, e que ele passa a carregar consigo por toda parte, em um vaso - o que é um detalhe particularmente delicioso para uma série de space opera militar. A maravilhosa capa de Donato Giancola representa Jela como um jovem negro, com a indefectível arvorezinha ao seu lado.

Resgatado, Jela é enviado em missão de reconhecimento em uma área meio sem lei da galáxia, atrás de pistas de uma arma secreta usada pelos sheriekas para destruir um sistema solar. No caminho ele acaba se tornando sócio de Cantra yos'Phelium, uma cínica pirata espacial, Han Solo de saias, de passado misterioso e de sofisticados sistemas militares de armas em sua pequena nave cargueira. Os dois também pegam Dulsey uma pessoa artificial, criada para ser escrava de um gangster do espaço, gangster que passa a persegui-los em suas movimentações por vários planetas. O enredo se concentra mais nesse conflito contra o crime organizado de proporções galácticas, com a intriga de espionagem recuando para o pano de fundo.

A dupla Lee & Miller desenvolve um texto limpo e elegante, de leitura agradável, e aplica detalhes exóticos e interessantes para a composição do seu universo ficcional. Lida bem com a tensão entre os interesses dos diversos protagonistas. Infelizmente, o romance é longo demais e tem uma "barriga" acentuada lá pelo meio, com situações que pouco contribuem - inclusive uma impertinente briga de bar que não parece ter nada a ver com a personalidade de Jela.

O estilo de Kris Longknife: Resolute (Ace, 2006, 342 páginas, paperback, capa de Scott Grimando), de Mike Shepherd, é mais objetivo e bem-humorado, mas menos elegante. Esse é o quarto livro de uma série de space opera militar estrelada pela Tenente Kris Longknife, oficial da marinha real de uma potência espacial do futuro. Nessa aventura, Kris, que faz parte da nobreza, é castigada por alguma trapalhada do passado, e enviada para comandar um distante posto fronteiriço orbitando um planeta de colonos meio caipiras, numa sociedade de feitio libertariano - uma corrente política que encontra repercussão enorme da FC norte-americana (enquanto a new space opera tende a brincar com a política socialista).

Os colonos do sistema Chance são, como todo libertariano, muito cientes de sua autonomia, e a chegada da nova oficial militar desperta reações frias. Mas as coisas esquentam quando Chance entra na mira de uma potencia rival, que chega ao sistema com muitas naves de combate, comandadas por um mimado desafeto de Kris, o Comodoro Henry Smythe-Peterwald 13º. Chance tem um portal estelar (que permite que as naves saltem de um portal a outro, driblando os limites da velocidade da luz), o que o torna um local estratégico - ainda mais considerando que o portal leva a um mundo incógnito, dotado de altíssima tecnologia abandonada por uma espécie alienígena que também está no pano de fundo da aventura.

Enquanto Kris e o pequeno grupo de subordinados que a acompanha precisam se virar para defender Chance usando um velho destróier abandonado, e sendo forçados a recorrer ao povo de Chance, Mike Shepherd dá mais atenção à hierarquia e à cultura militar exibida por Kris. É tudo muito próximo do que seriam a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais de hoje, mas as forças armadas costumam ser mesmo muito apegadas à tradição - mesmo hoje, unidades blindadas ou aerotransportadas ainda são chamadas de "cavalaria". Infelizmente e mesmo com uma batalha espacial reservada para o fim, as procastinações do enredo e as situações inexpressivas incluídas no livro apenas para lhe dar volume também atrapalham e desgastam o interesse do leitor. Os acenos do livro ao pós-humanismo são, felizmente, discretos: Kris tem um implante cerebral que é uma inteligência artificial de personalidade própria, somando humor a um romance que, se mais compacto, teria mais força e mais charme.

The Lost Fleet: Valiant (Ace, 2008, 284 páginas, paperback, capa de Peter Bollinger), de Jack Campbell, sofre do problema oposto. Esse livro é o quarto de uma série best-seller de space opera estrelada por John "Black Jack" Geary, uma "reencarnação" de Buck Rogers: desperto do sono criogênico, Geary havia sido oficial militar gerações antes da guerra entre duas potências humanas, a Aliança e os Síndicos, que empregam portais estelares também espalhados pela galáxia por uma espécie alienígena misteriosa. Em volumes anteriores, o herói descobre que, quando atacado, esses portais liberam energia destrutiva suficiente para varrer um sistema solar inteiro.

Depois que a esquadra perdida do título se mete nesses portais e vai parar em áreas desconhecidas da galáxia, Geary acaba assumindo o seu comando, e, com um misto de grande habilidade e sorte, escapa com ela de uma fiada de situações mortais. Valiant (o nome de uma das naves da esquadra perdida) descreve como Geary leva a melhor sobre forças mais numerosas dos síndicos, enquanto enfrenta dissidências internas de oficiais amotinados que não aceitam a sua autoridade.

A intriga é tensa e a ação, vigorosa. Essa é uma das séries que mais atenção dá à tecnologia e à movimentação de naves em combate espacial. Embora haja muito drama, nisso Campbell falha, e o seu romance parece meio subnutrido, carecendo de mais substância humana. Muito centrado na figura de Geary, o texto não se cansa de elogiar o herói, que atrai o interesse amoroso de uma subordinada e de uma assessora política, com muito ciúme venenoso entre elas. Esses dois fatores dão ao livro um ar mais de soap opera do que de space opera, o que é compensado pelas questões morais que ele levanta: Geary é militar de uma época em que ainda se lutava com honra, e tenta reeducar o pessoal sob o seu comando a respeitar o inimigo e os civis surpreendidos pelo conflito. Essa preocupação, e a evocação de armas apocalípticas de destruição em massa, tornam a série de Jack Campbell uma possível reação à desastrada política externa americana da Era Bush, com seu extermínio de civis por atacado, uso desproporcional de força militar e salões de tortura em calabouços do Oriente. Vigilante (Roc, 2009, 324 páginas, paperback), de Laura E. Reeve, traz uma outra heroína militar, Major Ariane Kedros, morena no texto, loura na capa. No primeiro livro da série, Peacekeeper, Kedros havia empregado uma arma apocalíptica que obliterou todo um sistema solar, usada pelo Consórcio de Mundos Autônomos contra a Liga de Expansão Terrana. Agora ela vive com as conseqüências morais desse ato, refugiando- se na garrafa.

Ela e seu colega Matt acabam envolvidos numa operação militar para invadir uma estação espacial tomada por terroristas de um mundo-colônia de feições islâmicas, membros de uma seita de machismo fundamentalista. No futuro criado por Reeve, a reprodução humana entre os habitats espaciais é realizada por bancos genéticos volantes, e é um desses que foi tomado. Mas o que Kedros e Matt precisam evitar é que os terroristas usem a arma de destruição em massa que contrabandearam dos arsenais do Consórcio.

A narrativa de Vigilante parece mais equilibrada do que os outros romances de space opera que eu discuto aqui. Dividida em vários pontos de vista narrativos, ela também dá voz a um dos terroristas, um hesitante jovem tiranizado por seu pai, o líder da seita extremista.

Esses quatro livros deixam claro que a velha space opera se mantém ativa, especialmente como um nicho de ficção científica militar - nicho que deve muito a Tropas Estelares (1959), de Heinlein, e que se estabeleceu nas décadas de 1970 e 80. Preocupada, como toda literatura popular que se preze, com o contemporâneo, apresenta armas de destruição em massa, genocídio, terrorismo, imperialismo, grandes forças ocultas e tudo o mais que compõe a bastardia geral do nosso tempo. Muitas dessas características são partilhadas pela nova space opera. Mas a maioria dos seus autores, ao contrário dos escritores da new space opera, têm experiência militar (até Laura E. Reeve, que foi oficial da força aérea americana) e por isso trazem um pouco mais de complexidade (e o seu próprio conjunto de ingenuidades) aos às vezes involuntários agentes de tudo isso. Também diferentemente dos autores de NSO, estes não ocultam as questões morais por trás de um distanciamento pós-moderno, preocupados que estão em engajar diretamente o leitor, com textos marcados pela ação e a aventura. É difícil dizer, porém, que eles vão muito mais longe na tarefa de dar conta da enormidade dos fatos que são atirados casualmente na trama - genocídio, terror, tortura, opressão e a gratuidade de decisões políticas que afetam milhões.

A nova space opera no Terra Magazine:

Resenha de The Cassini Division (2000), de Ken McLeod, em 27 de maio de 2006
Resenha de Revelation Space (2002), de Alastair Reynolds, em 16 de agosto de 2006
Resenha de Singularity Sky, de Charles Stross, em 11 de novembro de 2006

Veja também:
» Drops

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.
Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

por: Terra Magazine
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