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Resenha: O Doutor Benignus

O Doutor Benignus, Augusto Emílio Zaluar. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994 1875, 376 páginas. Prefácio de José Murilo de Carvalho; comentários ao romance, por Fernando Lobo Carneiro; nota sobre esta edição, por Helena Cavalcanti de Lyra & Ivette Savelli S. do Couto; posfácio por Elba Zaluar.

25 de junho de 2011 | 08h06 | atualizado às 08h06

O Doutor Benignus, Augusto Emílio Zaluar. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994 1875, 376 páginas. Prefácio de José Murilo de Carvalho; comentários ao romance, por Fernando Lobo Carneiro; nota sobre esta edição, por Helena Cavalcanti de Lyra & Ivette Savelli S. do Couto; posfácio por Elba Zaluar.

Pois é, a ficção científica brasileira existe desde a segunda metade do século 19, e muita gente não sabe. Precisou aparecer esta edição crítica organizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, para nos mostrar que Augusto Emílio Zaluar havia escrito um romance científico com base em Camille Flammarion e Jules Verne, publicando-o (provavelmente como folhetim) em 1875.

Essas influências dizem algo a respeito do que era a sociedade brasileira na época. Ainda sob o que Jeffrey Needell chamou de belle époque tropical, o Brasil curvava-se diante do peso da cultura francesa. Flammarion, um importante astrônomo francês, também era um místico espírita, disciplina filosófico-religiosa criada por Allan Kardec na França, e que no século 19 já se enraizava no Brasil. Dizem que a associação com o espiritismo teria prejudicado sua carreira como autor de voyages extraordinaires, como os franceses então chamavam os romances científicos. Livros como Urânia, de Flammarion, têm sido publicados no Brasil pela Federação Espírita Brasileira desde 1937. Já Verne era um racionalista que, no princípio de sua carreira, parecia acreditar cegamente nos valores da ciência e da tecnologia.

É claro, há obras ainda mais antigas. Uma delas é o folhetim Páginas da História do Brasil, Escritas no Ano 2000, de Joaquim Felício dos Santos (1826-1895), é uma obra satírica de um republicano sobre a monarquia brasileira, publicado de 1868 a 1872 no jornal O Jequitinhonha, sendo que, no texto, D. Pedro II é levado ao ano 2000, quando testemunha a falência do Império. Não obstante, muitos observadores apontam O Doutor Benignus como o primeiro romance brasileiro de FC, e é curioso que duas outras narrativas disputem com ele o título de "primeiro romance latino-americano de FC" - seriam o argentino El maravilloso viaje del Sr, Nic-Nac de Eduardo Holmberg, e o cubano Historia de un muerto de Francisco Calcagno, sendo que todos os três apareceram em 1875! No Brasil, o romance de Zaluar já rendeu um livro acadêmico dedicado ao seu estudo, A Fantástica Viagem Imaginária de Augusto Emílio Zaluar: Ensaio Sobre a Representação do Outro na Antropologia e na Ficção Científica Brasileira (Editora Corifeu, 2007), de Edgar Indalecio Smaniotto.

Fazendo a síntese de Verne e Flammarion num texto de arroubos oratórios constantes, Zaluar propõe o seu protagonista, o Dr. Benignus, como um cientista que busca no conhecimento janela para a evolução espiritual. Primeiro descrito como levemente atrapalhado, meio incapaz de achar um lugar produtivo para si na sociedade, Benignus é em seguida descrito como um homem que tenta alcançar uma dimensão divina, pelo conhecimento. Tanto que a primeira coisa que faz, depois de anunciá-la por carta ao próprio Flammarion, é afastar-se, com a família, do convívio social, isolando-se na atividade de naturalista. Durante um passeio na mata, com seu criado andino, Katini, ele descobre um pergaminho sic no chão de uma caverna, com a inscrição À porá e uma careta humanizada do Sol. Imediatamente deduz tratar-se de evidência da existência de vida inteligente no Sol (hipótese que Flammarion explorou em seus romances), e organiza uma expedição para, no Brasil central, realizar observações solares. A ele agregam-se o cientista francês M. de Fronville, e Jaime River, filho de um explorador inglês pré-fawcettiano perdido na selva.

A expedição vive várias aventuras em seu perambular, mas o que impera na narrativa é o didatismo. Benignus consegue ser mais didático do que o Prof. Lidenbrock, de Viagem ao Centro da Terra (1864) de Verne. Cada elemento de observação geológica, botânica ou zoológica é desculpa para algum tipo de comentário, episódio de oratória e reflexão filosófica. O capítulo 15 é dedicado, por exemplo, ao Dr. Lund, sábio europeu que esteve no Brasil e concluiu que as características geológicas do continente sugerem uma primogenitura da geografia nacional em relação às outras massas terrestres do mundo, teoria sedutora para o complexo de inferioridade brasileiro, e que iria intrigar Jerônymo Monteiro muitos anos mais tarde, em A Cidade Perdida (1948).

Essas ideias de uma especulação meio capenga, permitem a Zaluar fantasiar sobre uma utopia situada em alguma localidade eqüidistante entre a América do Sul e do Norte, marcada pelos valores positivistas abraçados pela sociedade brasileira de então: a redenção pelo trabalho e pela iluminação intelectual.

Eventualmente Benignus é visitado, em sonho (recurso bastante comum na época), por um dos habitantes do Sol, que, por ser o astro-rei, implicaria em seres de nível espiritual mais elevado. O "solariano" exorta o cientista a continuar o seu trabalho em prol do desenvolvimento da humanidade pelo conhecimento, e avisa que ele estará sendo supervisionado secretamente pelos habitantes do Sol. Ideias espíritas quase explícitas. A expedição acaba encontrando o inglês perdido, associado a uma tribo indígena que ele, baseado na sua superioridade cultural européia, ajuda a enfrentar seus inimigos tribais. Tanto que os índios não querem se separar dele, e Benignus acaba tendo de abduzir o inglês, e partir com seus companheiros, após a providencial chegada do balão (truque verniano) pilotado por seu amigo, o engenheiro americano James Whaton.

Como os prefaciadores concluíram, a ciência em O Doutor Benignus muito pouco a ver com o ethos do engenheiro que Verne cultivou tanto, em seus romances e histórias. É uma ciência que não muda o mundo, não altera a realidade, mas apenas a observa através de um olhar supostamente mais arguto. A principal ciência é então o naturalismo, extensão da filosofia natural do século 18.

No mesmo sentido, a aventura é menos aventura do que seria de se esperar num scientific romance, considerando que esta segunda palavra, no inglês, "romance", implica no aventuresco e em eventos "maiores que a vida". Essa relativa passividade reflete a incapacidade do brasileiro da época de se reconhecer como protagonista do movimento histórico, com base na ciência, na tecnologia, no empreendimento comercial ou militar, apesar de todos os sonhos de utopia de Benignus. Essa utopia, aliás, será construída a partir de uma postura moral, que realiza os ideais do liberalismo iluminista europeu de então. Ciência e tecnologia pouco têm a contribuir nesse processo, pois são apenas mecanismos filosóficos para elevar o homem a um novo patamar moral.

Essa postura na ficção científica brasileira, aliás, adentraria ao século 20 com obras como O Presidente Negro ou O Choque das Raças (1926), de Monteiro Lobato, ou Viagem à Aurora do Mundo (1939), de Erico Verissimo. Obras nas quais ciência e tecnologia não têm função transformadora, reduzidas a um entretenimento social trancado na mansão dos burgueses que compunham a elite do país.

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.
Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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por: Terra Magazine
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