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Súdito do fanzinato

Semana passada eu resenhei aqui o livro Enciclonérdia: Almanaque de Cultura Nerd, de Luís Flávio Fernandes & Rosana Rios, e apontei que alguns termos faltantes denunciam o quão esquisito eu sou (com alguns outros fazendo companhia), na escala de nerdice e perante o que hoje é central dentro da subcultura. Pois fanzine é outro termo essencial para os nerds da minha geração, faltante no almanaque. Como era possível ser um fã ativo de ficção científica na década de 1980 e 90, sem editar ou ler ...

16 de julho de 2011 | 08h41 | atualizado às 08h51

Semana passada eu resenhei aqui o livro Enciclonérdia: Almanaque de Cultura Nerd, de Luís Flávio Fernandes & Rosana Rios, e apontei que alguns termos faltantes denunciam o quão esquisito eu sou (com alguns outros fazendo companhia), na escala de nerdice e perante o que hoje é central dentro da subcultura. Pois "fanzine" é outro termo essencial para os nerds da minha geração, faltante no almanaque. Como era possível ser um fã ativo de ficção científica na década de 1980 e 90, sem editar ou ler fanzines? Hoje em dia, em que os blogs substituíram os fanzines - sem jamais igualá-los! -, a maioria dos fãs ativos nunca viu um. E muitos nem sabem o que é, o que me obriga a definir o termo.

"Fanzine" é o "magazine", ou revista, do fã. Fã de qualquer coisa, e no Brasil os fanzines mais comuns e populares são os de histórias em quadrinhos e de música - neste último caso, geralmente de rock underground. Há uma controvérsia de que o primeiro fanzine brasileiro seria de quadrinhos ou de ficção científica, ambos surgidos em 1965 com semanas de diferença. Mas provavelmente o primeiro fanzine brasileiro foi dedicado às cantoras do rádio ou aos artistas de cinema...

Mimeografado, xerocado, impresso em gráfica off-set, em impressora matricial ou laser, o fanzine é o jornalzinho caseiro, é o boletim do clubinho de literatura ou fã-clube de alguém ou alguma coisa que órbita nas esferas da cultura popular e do entretenimento, e que por alguma razão cativou o seu editor.

Os fanzines de ficção científica foram muito importantes na historia do gênero, no Brasil. O primeiro que se conhece foi O CoBra, lançado na 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica, em 1965 em São Paulo, logo seguido de Dr. Robô, boletim da Associação Brasileira de Ficção Científica, criada durante esse evento. Tiveram vida curta, e depois disso os fanzines voltam à cena em 1981 e 1982, vinculados a grupos de fãs de FC que pertenciam ou brotaram de clubes de astronomia amadora. Foram o Star News, da Sociedade Astronômica Star Trek, de São Paulo, e o Boletim Antares, do Clube de Ficção Científica Antares, surgido do Clube de Astronomia Antares, de Porto Alegre. Logo em 1983 surge o Hiperespaço, editado por Cesar Silva, José Carlos Neves & Mário Dimov Mastrotti a partir de Santo André, talvez o primeiro fanzine desse período criado fora de um clube de astronomia, algo que logo virou a norma. Space foi um fanzine nordestino, Millennium outro fanzine sulista. Em 1985 foi publicado o número zero daquele que seria o Somnium, fanzine do Clube de Leitores de Ficção Científica, um dos mais importantes da década de 1980, juntamente com Megalon, criado por Marcello Simão Branco & Renato Rosatti. Rosatti sairia mais tarde para criar os seus fanzines especializados em horror, Juvenatrix e Astaroth, ambos ainda em circulação, em formato PDF.

Essas publicações amadoras foram tão importantes, que há quem prefira chamar a Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira de "Geração Fanzine", o que excluiria todos aqueles autores que nunca escreveram para eles. Mas dentre os muitos que o fizeram estão Braulio Tavares, Ivan Carlos Regina, Jorge Luiz Calife, Henrique Flory, Daniel Fresnot, Roberto Schima, Carlos Orsi, Ataíde Tartari, Martha Argel, José dos Santos Fernandes, Fábio Fernandes, Lúcio Manfredi, Gerson Lodi-Ribeiro, Finisia Fideli, André Carneiro, Carlos Mores, Sid Castro, Maria Helena Bandeira, Octávio Aragão e dezenas de outros que ainda estão por aí ou fizeram a sua contribuição e se retiraram.

É claro, eu participei da onda dos fanzines escrevendo, desenhando e editando, desde 1983, quando me tornei um fã ativo. Meu primeiro conto apareceu em um fanzine (o Hiperespaço N.º 11), algumas das minhas primeiras polêmicas também. Houve um tempo em que eu publicava três ou quatro: Papêra Uirandê Especial, Borduna & Feitiçaria, The Brazuca Review e O Rhodaniano, a ponto de agrupá-lo sob o termo de "Fábrica de Fanzines do Causo".

Mas a fábrica fechou e eu fui fazer outras coisas, entre elas me conectar à Internet e escrever esta coluna, depois de ser apresentado por Antonio Luiz Costa ao Terra Magazine.

E aí Renato Rosatti inventou de me enviar o DVD contendo o documentário Fanzineiros do Século Passado, dirigido por Márcio Sno e disponível em http://vimeo.com/19998552. Toquei o DVD com dedos trêmulos, hesitei em começar a assisti-lo. Digo "começar" porque tive de parar e desde então tenho enrolado Rosatti, até que semana retrasada andei folheando alguns fanzines antigos e finalmente consegui ir à empresa de fotocópias para imprimir números de Papêra Uirandê Especial para o pesquisador Edgar Smaniotto, de modo que homeopaticamente eu me vacinei contra o choque de nostalgia, e deu pra terminar de vê-lo. Porque nostalgia dói, e a dor da nostalgia às vezes é fatal.

Ah, todas as tardes, noites e madrugadas fazendo fanzines... Não há nada que se compare. Escrever certamente não é tão bom, e talvez até mesmo ser publicado profissionalmente não seja tão satisfatório. Apenas alguém que foi fanzineiro pode saber como é se dedicar de corpo e alma a um produto perecível, completamente à margem e sem qualquer afetação, doado sem fins lucrativos a uma causa que só o seu coração entende (já que o juízo certamente não entende) por que ela cala tão fundo.

O despojado documentário de Sno tem o subtítulo de Capítulo 1: As Dificuldades para Botar o Bloco na Rua e a Rede Social Analógica. É composto apenas de depoente + fundo, não tem imagens auxiliares, sequer as capas dos fanzines mencionados; não tem roteiro nem estratégia de exposição do assunto - abre mão de uma abordagem história ou sociológica, esquece qualquer teoria da cultura, abre mão de definições formais, não contextualiza, não elabora, não aprofunda, não analisa, não disseca, não envolve com adornos de espécie alguma. São só os fanzineiros falando individualmente da sua experiência, mas a montagem faz com que soem como se estivessem dialogando - mantendo as distâncias, porém, como quando se comunicavam com leitores e colegas do Brasil todo e de outros países, usando apenas os correios.

A maioria dos fanzines mencionados é de música e quadrinhos. O único com uma conexão com a literatura é o Juvenatrix de Renato Rosatti. Os outros fanzineiros eu não conhecia e nem preciso conhecer, pois já sei aquilo que interessa - são todos meus irmãos em armas, meus companheiros de utopia. Cada um deles fala da sala de brinquedos da sua casa, a partir do canto com suas guitarras, do seu lugar nos subúrbios, de cidades do interior e das capitais, mas é como se todos estivessem sentados à mesma mesa numa festa entre amigos em que cada um compareceu do jeito que se sente melhor e onde não existe classe social ou desnível cultural. Durante os depoimentos, as expressões "liberdade", "arte", "expressão democrática", "sem censura", "independência" são repetidas e sublinhadas. "Fanzine é marca pessoal e ideologia." E o "Fanzinato", uma expressão que eu não conhecia, é espaço de amizade, amor, paixão e doação - é pagar pra fazer, ao invés de esperar lucro. É o amadorismo como dedicação ao gesto de amor por um objeto cultural qualquer que nos preenche e nos fazer querer preencher.

O subtítulo e várias situações exploradas nos depoimentos dão a entender que o assunto do documentário é o anacronismo de máquinas de escrever, tesoura e cola ao invés de editores de texto e programas de paginação; correio ao invés de e-mail; fanzineiros sem recursos engabelando os correios para poder enviar dinheiro escondido e fanzines como carta social, ao invés de blogueiros sem recursos fazendo gatos na rede de energia para blogar de madrugada... Mas o que sobressai é esse testemunho das relações sociais muito mais lentas e talvez por isso mesmo mais duradouras, feitas à distância mas nem por isso com menos interesse e respeito.

Por que fanzinar soa tão melhor do que blogar, eu me pergunto? Quando chega uma colaboração o editor abre o envelope e a lê para saber se vale a pena. E depois ao datilografá-la ele a torna um pouco sua, e ao montá-la na página faz dela ainda mais parte dele mesmo. Depois, com o fanzine pronto, lido pela primeira vez como um conjunto, o caminho inverso - o reencontro com a personalidade e as intenções do colaborador que se dispor a todos aqueles passos conhecidos de escrever, envelopar, colar, ir ao correio postar, tudo para aparecer no seu fanzine. O editor de fanzine se sente no centro no meio de uma teia em que ele é participante construtor de sentidos e de mensagens que chegam a ele de outras partes e outras mentes.

Talvez seja isso - ou simplesmente seja como o fã militante do meu tempo lidava com a sua paixão. Talvez a paixão do blogueiro não seja menor, apenas diferente, e a rede de que ele participa também lhe transmita a mesma sensação de conexão íntima e calorosa.

Rosatti diz no documentário que fanzine é como um vírus. Por isso é que, por mais que eu ache a sensação de editar um fanzine a mais recompensadora, é impossível retornar a ela sem devotar energia demais nessa atividade. Seria fácil voltar a editar meus fanzines - muito mais difícil desistir deles outra vez.

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.
Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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por: Terra Magazine
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